BOM DIA
Trata-se de uma das expressões que utilizamos quando saudamos alguém. Porêm, na língua Kongo, existe entre outras a expressão: luxikamene que traduzida para português resulta em "Como tens passado?". Esta frase no kikongo idiomático é muito profunda, equivale a dizer "como passaste a noite, como chegaste até aqui, enfim como é que tem sido a tua vida e a dos teus.
ARTIGO EM CONSTRUÇÃO: DIOGO CÃO ERA MAÇON?

3.1. Introdução ao Reino do Kongo


Depois de algumas reflexões sobre a matéria em questão, em especial, sobre o cuidado a ter com os grupos humanos que se foram sobrepondo, nos mesmos espaços, com os acontecimentos históricos com eles correlacionados e onde as formas socio económicas variaram com o decorrer dos tempos, sujeitas que estavam ao processo bio-cultural, verificámos que foram produzidas alterações profundas nas culturas presentes e em evolução constante. Sabemos e, por vezes, tememos que a limitação das descrições coevas, por vezes, nos confundam (especialmente, pelas ideias políticas e interesses de cada interveniente nas narrações) conduzindo-nos a algumas reinterpretações delicadas. De uma coisa estamos certos, tentámos exigir, de nós mesmos, o maior rigor científico, ponderando situação por situação e, se possível, tentámos encontrar as respectivas afinidades ou diferenças, porém não resistimos a subscrever e transcrever as palavras de Ruth Benedict acerca de uma sátira de Goethe.

Quem quer conhecer e descrever o vivente,
Procura primeiro desembaraçar-se do seu espírito,
 E depois de ter as diferentes partes na mão,
Falta só, infelizmente, a faixa espiritual que as une.” [1]
         
Esta nossa contribuição para o conhecimento dos contactos sócio-culturais do Reino do Kongo não tem outra pretensão senão procurar melhorar o que já se sabe, e mesmo assim, só neste ou naquele aspecto, menos conhecido, servindo de plataforma de entendimento e análise para o estudo do subgrupo Zombo. Optámos, assim, pela apresentação do capítulo O Reino do Kongo em três fases distintas relativamente à sua existência, realçando que este subsídio se esforça por se basear em factos histórico-sociológicos relevantes e também se reporta a documentos factuais que incidem sobre a fundação do reino do Kongo e se prolongam até ao presente próximo. Nesta perspectiva, apresentaremos, de seguida, uma pequena epítome, de cada uma das fases supracitadas:
         
1.    O Antigo Reino do Kongo – trata-se da fase que corresponde aos mitos da sua génese, à sua implantação e independência, assim como à afirmação simbólica, que no nosso entender (dentro das informações compulsadas) se inicia por volta do século XV e termina, com fases intermitentes de maior ou menor independência, por volta de meados do século XIX. Basicamente, neste espaço temporal, exerceram os europeus e em especial os portugueses, enorme pressão económica, cultural e religiosa, sobre os povos da Bacia Convencional do Zaire, como ficou conhecida pelas potências coloniais a área do espaço geográfico, (considerando como elementos estruturais a exploração de matérias primas e o comércio liberal) ocupado pelo rio Zaire, seus afluentes e confluentes. Nesta secção, procuraremos começar a reflectir com mais frequência, sobre alguns termos das línguas kikongo e kimbundo, que induziram, em cada fase, à compreensão dos significados relevantes do fenómeno linguístico, nos diferentes grupos humanos aí presentes. Será aqui também que nos debruçaremos sobre os assuntos que se referem aos primórdios dos contactos dos potentados kongo, através dos ‘línguas’ zombo, com os navegadores e conquistadores portugueses, nos seus actos expansionistas e mercantis (de ambos os lados, cada um à sua escala) e os posteriores conflitos ocasionados pelas forças políticas, económicas e sociais intervenientes.

2.    O Reino do Kongo dya Ntotila ou Ntotela: Esta fase corresponde ao declínio dos contactos diplomáticos portugueses pois, uma vez estabelecida a confusão das potências negociantes e depois ocupantes, se tivermos em conta as suas próprias formas de entender o processo socioeconómico, os meios materiais e intelectuais de que dispunham, a experiência anterior adquirida e especialmente a capacidade de adaptação física, isto permitiu, com o tempo, um mais profundo internamento no sertão e uma menor dependência dos autóctones. Este foi o caso dos portugueses, ao verem-se envolvidos pelo ancestral processo de mestiçagem física. Os estrategas da expansão marítima e abordagem continental sabiam das suas vantagens e desvantagens. Do que se tem escrito, somos mais sensíveis ao século XIX; aqueles que contactaram, por períodos mais ou menos longos, com as populações ultramarinas, ajudaram a entender melhor as relações sociais que se desenvolveram naquele século, altura em que se intensificaram as explorações científicas na Bacia Convencional do rio Zaire. Foi o período das grandes caravanas, incluindo as que escondiam já os desígnios da ocupação com o intuito da repartição de África pelos poderes europeus, a chamada expansão colonial africana. Embora esteja uma panóplia documental por “descobrir”, há que regozijarmo-nos dos muitos dos documentos legados, por exemplo, as cartas geográficas dos acessos portuários, dos relevos, entre outras, através das quais, as potências coloniais trocaram informações de relevante importância. Este tipo de documentação, reputada do maior interesse, foi sempre sigilosa e nela residiram informações que permitiram a exploração de matérias-primas, defendidas a todo o custo pelos potentados negros.

3.    O Reino do Kongo dya Xingongo e dya Gunga: O último quartel do século XIX, é a fase da consolidação diplomática cristã, junto do então rei do Kongo, anteriormente marquês de Katendi e de seu nome oficial D. Pedro V de Água Rosada, porém, conhecido, em todas as terras do kongo, por Elelo, (o rei dos Panos) Ntotela, Ntinu a Kongo e Weni W’ezulu. Entretanto, o Estado Português vinha já há muito tomando progressivamente conhecimento das mais secretas informações, numa fase que iria prolongar-se durante séculos, repleta de percalços, até à fixação do imposto de cubata, por volta do início da segunda década do século vinte. Dedicaremos maior atenção a esta fase, por ser nela que repousam documentos essenciais de cariz científico, testemunhos vivos, visto se tratar de um passado mais recente. Lembremos, contudo, novamente de que terão, em todos os momentos, de ser analisada a sua fiabilidade.

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